quinta-feira, julho 21, 2005

"Ainda bem que morreu para deixar de me chatear"

Acabei de chegar da farmácia onde se passou o episódio que não resisto a relatar.
O farmacêutico perguntou, a uma senhora que tinha acabado de entrar, pelas melhoras de um seu familiar. A senhora que tinha um ar fresco e desempoeirado respondeu com uma voz mais ou menos melada que tinha falecido há cerca de um mês. Percebi que teria sido uma pessoa idosa, talvez a mãe.
A senhora estava acompanhada por uma criança, uma miúda que não tinha mais de oito anos e que tinha permanecido numa outra zona do balcão mais próxima de mim e da empregada que na altura me atendia. Na sequência da conversa anterior, a menina comentou de forma fria e muito objectiva: "ainda bem que morreu para deixar de me chatear". Nesse momento eu e a farmacêutica que terá sensivelmente a minha idade entreolhámo-nos. Não precisámos de verbalizar o mais pequeno som para percebermos que ambas tínhamos acabado de apanhar um murro no estômago. Eu pensei de imediato: "daqui a trinta anos a menina será uma jovem adulta e eu terei a idade da sua avó. Por este andar já terei sido eliminada antes de "começar a chatear"".
Que merda de sociedade de consumo é esta que acaba com os afectos, despreza a sabedoria e a experiência, torna tudo descartável, até as pessoas!!Foi chocante, simplesmente!!

5 comentários:

Desambientado disse...

É triste, mas a verdade é que a vida está continuamente a ser inflacionada.

Alma de Poeta disse...

Comento neste post porque o titulo me chamou a atenção. Efectivamente esse pensamento tb já me assaltou várias vezes, face ao que se vê na nossa sociedade, até a nivel mundial, a forma como os nossos idosos passam a ser uns pesos pesados para a família.
É preocupante sem dúvida.Mas também está na hora das familias começarem a sensibilizar as crianças para a valorização da familia e dos idosos. Gostei muito pela chamada de atenção do post, para este grave assunto. Um feliz 2006

TF disse...

Alma de poeta
Agradeço o seu comentário. Se precisamos de começar a sensibilizar é porque precisamos de recuperar alguma coisa que se perdeu. O estranho é que se tenha perdido. Isso é que eu não entendo.

TF disse...

Felix
Pois é triste e preocupante. Não sei muito bem se percebi o teu conceito de inflação aplicado à vida mas vou pensar.

Desambientado disse...

O que quero dizer é que a vida começa a ser vista como algo normal, sujeita à indeferença, a mesma indiferença que aparece quando temos muito do mesmo.
A vida não é nem nunca será normal.É uma anormalidade no Universo, apenas está concentrada aqui.